Foi ótimo encontrar o Peng, um chinês que está morando na Eslováquia, conhece muitos estrangeiros e entende mais a cultura ocidental que a maioria dos chineses.

Conversei com ele sobre várias coisas interessantes durante a viagem que fizemos.

Sobre religião:
Nem sempre é fácil conversar sobre religião, mas considerando que eu gosto de conhecer outras religiões pra tentar entender outros pensamentos, que sou católica e espírita não-praticante, que o Peng não tem uma religião definida e que ele também gosta de conhecer outras visões sobre o assunto, nossa conversa foi bem interessante!
Conheci mais sobre o Budismo e os vários deuses que eles acreditam, fiquei sabendo que tudo começou como uma filosofia e que hoje é a religião da maioria dos chineses, que é uma religião pacífica, que eles tem templos ao invés de igrejas (são raras as igrejas na China!), que a religião foi trazida da Índia e que também existe céu e inferno.
Ter fé, acreditar em alguma coisa ‘maior’, rezar… não é muito comum entre as pessoas que conheço. É interessante perceber que aqui isso não é algo tão importante como é no ocidente.
Concordamos no fim da conversa que toda religião tem como finalidade o bem e é uma forma de controlar e guiar as pessoas para que se comportem bem e ajudem outras pessoas.
Agora além de católica e espírita posso acrescentar um pouco de budismo na minha vida. Por que não?

Sobre a China:
Resumindo tudo o que já conheci sobre a China, posso dizer que:
A China é um país enorme, que tem muita vontade de crescer, de criar, de se desenvolver. Por isso eles trabalham tanto e trabalham sempre. Eles se divertem comendo, a refeição é uma parte importante do dia e eles comem de tudo, usam de tudo pra fazer comida e comem sem frescura. A parte leste do país é a mais desenvolvida e moderna, mas ainda existe a parte oeste pobre e pouco desenvolvida. E a maioria das pessoas quer sair do oeste e ir para o leste do país. A China é um quebra-cabeça, um país composto por várias peças únicas, com língua, cultura e comida característicos de cada lugar. E por isso é tão perigoso fazer generalizações sobre a China.

Uma coisa que descobri é que a China que estudei não é a mesma que vejo hoje. Muita coisa aconteceu durante os anos e afastou o que eu sabia sobre a história da China e o que eu sei agora. Estudei em escola particular, em universidade federal, já conheci outros países, mas nada disso garantiu que eu conhecesse um pouco do país que estou. Descobri que não sabia nada antes de morar aqui. E provavelmente se você nunca veio pra cá, também não sabe. Mas continuem visitando o blog, porque compartilhar o que estou vivendo por aqui, e mostrar minha visão da China é um dos motivos do blog!

Sobre o comunismo chinês:
Já me perguntaram: “Tudo que vejo você descrevendo é bem parecido com o capitalismo do Brasil, então onde fica o tão comentado comunismo chinês?”
O comunismo chinês hoje é apenas na parte política. A economia é sim bem capitalista e o governo chinês é muito rico.
Na visão do Peng, manter o controle das pessoas como o governo faz é importante porque garante o desenvolvimento do país. A maioria das pessoas trabalha muito, recebe seu salário em yuan (uma moeda desvalorizada: 1dólar = 6,8yuan), compra o básico para viver, paga muitos impostos, sonha em comprar um carro e uma casa e assim continua a trabalhar muito. Enquanto isso o governo mantém sua moeda desvalorizada, assim consegue ser competitivo no mercado internacional e exporta muito para o mundo inteiro, ganha muito dinheiro, recebe os impostos, controla as informações da TV e internet, alimenta a importância de fazer o país se desenvolver, e assim mantem todo mundo trabalhando.
Certo? Errado? Melhor? Pior? Não sei, é uma forma diferente de controle (já que todos somos controlados de alguma forma).

Sobre a visão da Ásia sobre a América Latina:
Durante a viagem entramos no assunto sobre como a Ásia enxergava a América Latina. E saber que somos vistos como pessoas que se divertem bastante, não trabalham muito, e que não importamos muito se algo está ruim (somos pacíficos e não temos guerras), me deixou um pouco irritada.
Foi como se tivessem pisado no meu calo, ou xingado minha mãe.
Peraí, a gente se diverte sim, mas trabalhamos muito também. E tudo bem que sabemos de várias coisas erradas e não fazemos nada, mas não é sempre assim!
Nããão, o Brasil não é só futebol e músicas empolgantes, nem todos os brasileiros são pacíficos e tiram férias. Muita gente trabalha até anoitecer, todos os dias da semana, ganha pouco, não tem o que comer, vende as férias. A variedade musical é extrema e axé é só um dos milhares tipos de música que fazemos. Carnaval é só uma das várias manifestações artísticas da nossa cultura. Praia é só uma das opções turísticas do país, e muitos brasileiros nunca viram o mar.

Mas eu não dei todas essas explicações. Eu só disse que não era assim, fiquei vermelha de raiva (mas não era raiva mesmo, era só inconformada mesmo) e falei superficialmente sobre o Brasil, porque eu sabia quer era apenas um fato que eu tinha ficado sabendo, não era uma opinião dele, era a visão de um continente.

E comecei a pensar, pensar e pensar: ninguem tem obrigação de saber sobre o Brasil, a visão deles é tão distorcida quanto a nossa em relação a Ásia, somos países diferentes e não precisamos provar o que é melhor e o que é pior, afinal isso não é uma competição entre países. Ou é?
Cada um faz o que quer do jeito que achar melhor.

Mas continuei pensando e levantando perguntas na minha cabeça: Trabalhar muito é importante? Divertir sempre é importante?Somos mais felizes porque divertimos mais? Eles são menos eficientes porque trabalham no final de semana? Ser um país desenvolvido e moderno é importante? Qual a definição de importância?Importância é uma coisa cultural? Qual a nossa função no mundo? Fazer o bem? Ser feliz? Fazer a diferença e transformar o mundo em um lugar melhor? Mas o que é um lugar melhor? Outra coisa cultural?

Com tantas perguntas sem resposta na minha cabeça, parei de pensar. E fiz minha conclusão: Existem diferenças de cultura entre os países, assim como existem diferenças de pensamento entre pessoas. Pra algumas pessoas o dinheiro é mais importante, pra outras são os pais, ou o cônjuge, ou o trabalho, ou os amigos, ou Deus, ou qualquer outra coisa que a pessoa definir pra sua vida.
Uma vez alguem me disse que o mais difícil era reconhecer no outro, o outro. São outras características, outro modo de pensar e de viver. As pessoas e os países são assim e a gente só tem que reconhecer isso e respeitar. Ponto.

Essa é a minha opinião. Você pode ter outra. E isso não tem nada a ver com certo ou errado.

Aí comecei a pensar no que era importante pra mim, mas ainda não tenho conclusões.